segunda-feira, 3 de agosto de 2026

EDITAL Nº 01/2026 CONCURSO DE ARTES VISUAIS Internet sem Violência: Elas Ocupam as Rede

 

Arte digital com fundo preto e detalhes em degradê roxo nas laterais. No centro, em destaque, aparecem os dizeres: "EDITAL", seguido de "Concurso Artes Visuais". Logo abaixo, o título do concurso: "Internet Sem Violência", com "Internet" em roxo e "Sem Violência" em laranja. Na parte inferior, a frase "Elas ocupam as redes" aparece em branco, em letras inclinadas.

Na base da imagem estão as logomarcas do projeto Elas em Rede – Escola Sem Violência, do Movimento Feminista Inclusivass, da EMEF Chapéu do Sol e do Fundo Elas+. A identidade visual utiliza as cores preto, roxo, branco e laranja, remetendo à campanha do Agosto Lilás e ao enfrentamento da violência digital.

Projeto Elas em Rede: Escola sem Violência

O Movimento Feminista Inclusivass, em parceria com a Escola Municipal de Ensino Fundamental Chapéu do Sol, com apoio do Fundo Elas+, torna público o presente Edital do Concurso de Artes Visuais "Internet sem Violência: Elas Ocupam as Redes", que integra as ações do Projeto Elas em Rede: Escola sem Violência e da campanha Agosto Lilás.

O concurso tem caráter educativo, artístico e cultural e busca estimular estudantes a refletirem, por meio da arte, sobre a prevenção das violências digitais contra meninas e mulheres, promovendo o respeito, a cidadania digital e os direitos humanos.

1. DOS OBJETIVOS

São objetivos deste concurso:

  • promover a educação para a cidadania digital;

  • incentivar a produção artística entre estudantes;

  • sensibilizar a comunidade escolar sobre as violências de gênero facilitadas pela tecnologia;

  • estimular o protagonismo estudantil na promoção de uma internet mais segura;

  • fortalecer ações de prevenção à violência contra meninas e mulheres;

  • valorizar a criatividade e a expressão artística dos estudantes.

2. DO TEMA

Internet sem Violência: Elas Ocupam as Redes

As obras deverão abordar um ou mais dos seguintes temas:

  • violência digital;

  • cyberbullying;

  • misoginia;

  • respeito nas redes sociais;

  • combate ao discurso de ódio;

  • igualdade de gênero;

  • internet segura;

  • inclusão;

  • acessibilidade digital;

  • protagonismo das meninas;

  • cultura de paz;

  • direitos das crianças e adolescentes na internet.

  • capacitismo

3. DOS PARTICIPANTES

Poderão participar do concurso estudantes regularmente matriculados do 6º ao 9º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Chapéu do Sol.

Cada estudante poderá inscrever uma única obra, observando as regras deste edital.

Não poderão participar:

  • estudantes integrantes da equipe de Jovens Multiplicadores do Projeto Elas em Rede: Escola sem Violência, em razão de sua participação na organização e execução das atividades do projeto;
  • membros da Comissão Organizadora;
  • membros da Comissão Julgadora;
  • familiares em primeiro grau dos integrantes da Comissão Julgadora.

4. DO TEMA

O tema do concurso é:

"Violência Digital contra Meninas e Adolescentes"

As obras deverão estimular a reflexão sobre a construção de uma internet mais segura, respeitosa, inclusiva e livre de violências, dialogando com a proposta do Projeto Elas em Rede: Escola sem Violência.

Os trabalhos poderão abordar um ou mais dos seguintes assuntos:

  • violência digital;
  • cyberbullying;
  • misoginia;
  • racismo;
  • capacitismo;
  • LGBTfobia;
  • discursos de ódio;
  • exposição de imagens íntimas ou pessoais sem consentimento;
  • perseguição virtual (stalking);
  • golpes virtuais;
  • sextorsão;
  • deepfakes;
  • inteligência artificial e seus riscos;
  • cidadania digital;
  • direitos das crianças e adolescentes na internet;
  • respeito nas redes sociais;
  • igualdade de gênero;
  • cultura de paz.

5. DAS MODALIDADES E ESPECIFICAÇÕES DAS OBRAS

Serão aceitos trabalhos inéditos e autorais nas seguintes modalidades:

  • Desenho;
  • História em Quadrinhos (HQ);
  • Tirinha;
  • Charge;
  • Cartum;
  • Ilustração.

As obras deverão ser produzidas manualmente, em folha tamanho A4, utilizando técnica livre, podendo ser empregados materiais como:

  • lápis grafite;
  • lápis de cor;
  • canetinhas;
  • giz de cera;
  • giz pastel;
  • tinta guache;
  • tinta acrílica;
  • aquarela;
  • nanquim;
  • colagem;
  • técnica mista.

Não serão aceitos:

  • trabalhos produzidos por Inteligência Artificial;
  • imagens impressas;
  • cópias de obras existentes;
  • trabalhos realizados por terceiros;
  • obras que contenham conteúdo ofensivo, discriminatório ou que violem direitos humanos. 

6. DAS INSCRIÇÕES

As inscrições serão gratuitas.

Período:

03 de agosto de 2026 até 14 de agosto de 2026.

Para efetivar a inscrição será obrigatório entregar:

  • ficha de inscrição devidamente preenchida;

  • autorização assinada pelo responsável legal;

  • obra artística;

Também será solicitado que o estudante:

  • siga o perfil oficial do projeto @elassemrede;

  • compartilhe a publicação oficial do concurso em suas redes sociais ou, quando não possuir perfil, o compartilhamento poderá ser realizado pelo responsável.

7. DOS CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO

Os trabalhos serão avaliados considerando:

Critério                                                                           Pontuação
Criatividade20 pontos
Originalidade20 pontos
Relação com o tema20 pontos
Qualidade artística20 pontos
Clareza da mensagem20 pontos

Pontuação máxima: 100 pontos.

Em caso de empate serão considerados:

  1. maior nota em relação ao tema;

  2. maior nota em criatividade;

  3. maior nota em originalidade.

Persistindo o empate, a Comissão Julgadora decidirá por consenso.

8. DA COMISSÃO JULGADORA

A Comissão Julgadora será composta por representantes:

  • do Movimento Feminista Inclusivass;

  • da EMEF Chapéu do Sol;

  • do Projeto Elas em Rede: Escola sem Violência;

As decisões da Comissão serão soberanas.

9. DO CRONOGRAMA

Etapa                                                Data
Publicação do edital                                                        03/08/2026
Lançamento e divulgação oficial                                                        07/08/2026
Inscrições                                                        03/08 a 14/08/2026
Avaliação das obras                                                       15/08 a 31/08/2026
Divulgação dos resultados
Cerimônia                                           
                                                       07/09/2026
                                                       11/09/2026



10. PREMIAÇÃO
Serão premiados:
  • 1º Lugar;

  • 2º Lugar;

  • 3º Lugar.

A Comissão poderá conceder Menções Honrosas.

Todos os participantes receberão certificado de participação.

A cerimônia de premiação acontecerá em 11 de setembro de 2026.

11. DOS DIREITOS AUTORAIS E DE USO DE IMAGEM

Os(as) participantes autorizam gratuitamente o uso das obras pelo Movimento Feminista Inclusivass, pela EMEF Chapéu do Sol e pelo Fundo Elas+, exclusivamente para fins:

  • educativos;

  • culturais;

  • institucionais;

  • científicos;

  • de divulgação do projeto.

As obras poderão compor:

  • exposições;

  • cartilhas;

  • materiais pedagógicos;

  • publicações;

  • redes sociais;

  • campanhas educativas;

  • mostras culturais.

A autoria será sempre identificada.

12. DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

A inscrição implica na aceitação integral deste Edital.

Casos omissos serão resolvidos pela Comissão Organizadora.

A Comissão poderá desclassificar trabalhos que:

  • não atendam ao tema;

  • apresentem conteúdo discriminatório;

  • incentivem violência;

  • violem direitos humanos;

  • não sejam autorais.

Realização:

  • Movimento Feminista Inclusivass

  • Escola Municipal de Ensino Fundamental Chapéu do Sol

Apoio

  • Fundo Elas+

Projeto

Elas em Rede: Escola sem Violência

Instagram oficial: @elassemrede

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Lançamento do Projeto Elas em Rede: Escola sem Violência

 

Logomarca do projeto centralizada sobre um fundo branco.

À esquerda, a palavra "Elas" aparece em letras grandes na cor roxa, em uma fonte cursiva. Logo abaixo, a expressão "em" está escrita em preto, também em estilo manuscrito. Ao lado, a palavra "REDE" surge em letras maiúsculas brancas sobre um retângulo com degradê em tons de azul e roxo.

Acima da palavra "REDE", há uma ilustração vista de costas de cinco crianças caminhando de mãos dadas. No centro do grupo está uma criança usuária de cadeira de rodas. As demais crianças apresentam diferentes tons de pele, cores de cabelo e vestimentas, representando diversidade e inclusão.

Ao redor das crianças, linhas pretas com pontos azuis formam um símbolo que remete a conexões em rede.

Abaixo da logomarca, em letras maiúsculas azuis, está o texto "ESCOLA SEM VIOLÊNCIA".

O Movimento Feminista Inclusivass lançou o projeto Elas em Rede: Escola sem Violência, uma iniciativa realizada em parceria com a Escola Municipal de Ensino Fundamental Chapéu do Sol e com o apoio do Fundo Elas+.

O projeto busca prevenir e enfrentar a violência de gênero facilitada pelas tecnologias, promovendo uma cultura de respeito, igualdade e cidadania digital entre crianças e adolescentes.

Ao longo da execução serão desenvolvidas diversas ações, entre elas:

  • formação de jovens multiplicadoras, fortalecendo o protagonismo estudantil na prevenção das violências;

  • oficinas sobre violência digital, cyberbullying, misoginia, discurso de ódio, consentimento e segurança na internet;

  • atividades educativas com estudantes, famílias e equipe escolar;

  • pesquisa sobre o uso das redes sociais e a percepção da violência digital no ambiente escolar;

  • elaboração de uma cartilha educativa sobre violência digital contra meninas e adolescentes;

  • produção de materiais de comunicação e campanhas de conscientização;

  • fortalecimento da rede de proteção e promoção dos direitos de meninas e adolescentes.

O Elas em Rede acredita que a escola é um espaço fundamental para a construção de relações baseadas no respeito, na igualdade e na garantia de direitos. Ao formar jovens multiplicadoras e envolver toda a comunidade escolar, o projeto contribui para uma internet mais segura e para uma sociedade livre de violências.


terça-feira, 14 de abril de 2026

Educação Inclusiva para quem?

No topo, aparece um logotipo com borboletas coloridas e o nome “Inclusivass”, ao lado de letras grandes e coloridas “ABC”. Ao centro, em destaque, está o título “Educação Inclusiva”, seguido da frase “para quem?” e o nome “Bruna Schatschineider”.

Ao redor do título há elementos escolares ilustrados, como lápis, tesoura, borracha, clipes e um personagem em forma de lápis usando chapéu de formatura e segurando uma varinha.

Na parte inferior, há três crianças desenhadas sentadas no chão, interagindo com materiais escolares. Uma delas usa óculos, outra segura um livro, e todas estão sorrindo. Ao lado direito, há a ilustração de uma mulher em pé, vestindo roupa azul e segurando uma bengala, representando uma pessoa com deficiência visual.




No Dia Mundial da Educação Inclusiva, 14 de abril, denunciamos a realidade vivida por meninas com deficiência nas escolas do Rio Grande do Sul.


Garantir o direito à educação não é apenas garantir matrícula. É assegurar acesso, participação, permanência e aprendizagem. Quando isso não acontece, o que vemos é a reprodução de desigualdades estruturais.


Nas escolas, estudantes com deficiência ainda enfrentam barreiras cotidianas: materiais não adaptados, espaços físicos inacessíveis, ausência de recursos de comunicação, falta de apoio especializado e práticas pedagógicas que ignoram diferentes ritmos de aprendizagem.


A falta de políticas públicas consistentes e de investimento em educação inclusiva produz e mantém essas barreiras. Quando acessibilidade, formação docente e recursos pedagógicos não são prioridade, a exclusão deixa de ser exceção e passa a fazer parte da estrutura do sistema educacional.


Mas essas barreiras não atingem todas as pessoas da mesma forma. Meninas com deficiência enfrentam uma dupla desigualdade: o capacitismo e as desigualdades de gênero. Enquanto meninos com deficiência, em muitos contextos, recebem mais incentivo à autonomia e à participação, meninas são frequentemente superprotegidas, desacreditadas ou mantidas sob expectativas mais baixas de aprendizagem.


Essa diferença de tratamento reforça papéis de gênero dentro da própria escola e limita o acesso das meninas com deficiência às mesmas oportunidades educacionais oferecidas aos meninos.


Esse cenário revela o capacitismo institucional. Ele aparece quando a inclusão é celebrada no discurso, mas não garantida na prática; quando adaptações são adiadas; quando a responsabilidade pela inclusão recai sobre famílias ou sobre as próprias estudantes.


Também é fundamental garantir a participação efetiva das profissionais da educação na construção pedagógica de práticas inclusivas, com recursos acessíveis que possibilitem a presença, a voz ativa e a participação das estudantes com deficiência nos processos de aprendizagem.


Sem acessibilidade pedagógica e sem o reconhecimento da experiência das próprias profissionais e estudantes com deficiência, a escola segue reproduzindo exclusões.


O capacitismo também atinge profissionais da educação com deficiência. Professoras enfrentam barreiras de acessibilidade, desconfiança sobre suas capacidades e ausência de condições adequadas de trabalho, o que limita sua participação plena nas instituições escolares.


Educação inclusiva não pode ser tratada como improviso ou boa vontade. Ela exige compromisso público: formação docente contínua, acessibilidade física, comunicacional e pedagógica, recursos adequados e participação ativa das próprias pessoas com deficiência na construção das políticas educacionais.


Sem políticas públicas efetivas, investimento e reconhecimento das desigualdades de gênero, meninas com deficiência continuarão enfrentando mais obstáculos para acessar e permanecer na escola.


Neste 14 de abril reafirmamos: educação inclusiva é direito, é política pública e é responsabilidade coletiva.


Bruna Schatschineider


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

COLUNA DAS INCLUSIVASS- Jornal Brasil de Fato RS: Mulheres com deficiência: a luta histórica contra o patriarcado capacitista e pelo direito de existir.

 

Carol Santos*

A história das pessoas com deficiência e, especialmente, das mulheres com deficiência é marcada por violência, exclusão e silêncio imposto. Por séculos, esses corpos foram tratados como propriedade de famílias, instituições ou do Estado. Foram tuteladas, infantilizadas, segregadas e privadas de autonomia. Suas experiências foram desconsideradas, e seus direitos, negados.

No caso das mulheres, tudo isso se amplia pela força do patriarcado. O machismo e o capacitismo se combinam para produzir um tipo específico de opressão, na qual o controle sobre o corpo, a sexualidade, a capacidade de decisão e a participação pública é intensificado. A misoginia o ódio às mulheres ganha uma camada adicional quando dirigida a mulheres com deficiência, frequentemente vistas como “menos mulheres”, “menos capazes”, “menos dignas”.

Essa combinação transforma muitas delas em alvos três vezes mais expostos à violência: física, psicológica, sexual, patrimonial, institucional e obstétrica. A dependência produzida pelas barreiras sociais e a falta de acessibilidade deixam muitas mulheres com deficiência vulneráveis dentro da própria casa, nas instituições de saúde, nos abrigos e até nos serviços que deveriam protegê-las.

O silêncio social e o descrédito fruto do capacitismo agravam ainda mais a situação: muitas denúncias não são levadas a sério, muitas vozes são ignoradas.

Ainda assim, mesmo atravessando essas múltiplas violências, mulheres com deficiência sempre resistiram. E é graças a essa resistência que hoje podemos falar de direitos.

Uma trajetória que deixou marcas profundas

A exclusão das pessoas com deficiência  e especialmente das mulheres  não foi um acidente histórico: foi um projeto sustentado pelo patriarcado, pelo machismo estrutural e pela crença capacitista de que corpos não normativos não pertencem à vida social.

As marcas dessa história ainda estão presentes: escolas inacessíveis, falta de oportunidades de trabalho, invisibilidade política, esterilizações forçadas, tutela compulsória e o questionamento constante da capacidade dessas mulheres de decidir sobre suas próprias vidas.

Da negação ao reconhecimento: uma linha histórica de luta

1960–1970 — nascimento do movimento moderno e do modelo social

Nesta época, pessoas com deficiência começam a se organizar internacionalmente, denunciando o isolamento imposto. É nesse ambiente que nasce o modelo social da deficiência, afirmando que os obstáculos não estão nos corpos, mas nas barreiras culturais e estruturais que a sociedade cria.

Mulheres com deficiência passam a denunciar que, além das barreiras físicas e sociais, enfrentam ser tratadas como incapazes, assexuadas ou, ao contrário, disponíveis para o abuso  fruto direto da misoginia e do capacitismo.

2006 — Convenção Internacional da ONU

Aprovada após intensa mobilização global, a Convenção coloca a deficiência no campo dos direitos humanos, reconhecendo autonomia, participação, igualdade e acessibilidade como princípios fundamentais.
É uma resposta direta a séculos de violências sustentadas pelo machismo e pelo capacitismo.

2009 — O Brasil incorpora a Convenção com status constitucional

É um marco: o país se compromete a enfrentar todas as formas de opressão, incluindo as violências de gênero e de deficiência, que limitam profundamente a vida das mulheres.

2015 — Lei Brasileira de Inclusão

Após décadas de reivindicação, a LBI consolida direitos básicos e cria mecanismos de proteção e participação social.
Ainda que tardia, é uma lei que reconhece que pessoas com deficiência  inclusive mulheres  têm o direito de existir, amar, decidir e participar plenamente da sociedade.

Mas que direitos são esses que levaram tanto tempo para chegar?

São direitos que deveriam ser óbvios, mas foram negados por séculos:

  • viver sem violência  em casa, na rua, nas instituições e no digital

  • ter autonomia sobre o próprio corpo, maternidade e sexualidade

  • exercer trabalho digno e remunerado

  • estudar em escolas inclusivas e acessíveis

  • circular pela cidade com segurança

  • participar da política e da vida pública

  • acessar saúde sem discriminação

  • amar, desejar, construir sua própria vida

  • existir sem tutela imposta

Esses direitos só se tornaram garantias formais por causa da luta coletiva  e principalmente da luta das próprias mulheres com deficiência.

Mulheres com deficiência têm desafiado o patriarcado capacitista ao afirmar:

não somos frágeis demais para decidir,
nem fortes demais para sofrer caladas;
não somos objetos de cuidado;
somos sujeitos de direitos.

Elas reivindicam voz, representação, segurança, autonomia, acessibilidade e respeito. São cada vez mais protagonistas na denúncia das violências escondidas sob o nome de “proteção”, e na construção de políticas públicas que reconhecem suas vidas como dignas.

No Dia Internacional dos Direitos Humanos, é preciso reafirmar:
direitos humanos só existem quando todas as pessoas conseguem exercê-los  sem machismo, sem violência, sem misoginia e sem capacitismo.

Carol Santos  é ativista feminista, sobrevivente de tentativa de feminicídio e faz parte do Movimento Feminista Inclusivass.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo
Texto publicado na Coluna das Inclusivass em 10/12/2025





terça-feira, 9 de dezembro de 2025

 

Card com fundo preto com o desenho da bandeira do Brasil em traços brancos. No centro, onde normalmente aparece a faixa com o lema da bandeira, está escrito “Não há dia de paz”. A faixa está manchada por um filete de sangue vermelho que escorre para fora do círculo, marcando a imagem com gotas que caem até a parte inferior. Abaixo, em letras grandes e brancas, aparece a palavra “MULHERES”, parcialmente coberta por uma mancha vermelha que simboliza sangue. No topo da imagem estão os logos do Inclusivass e do Fundo Elas+.

Os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher aconteceram em um cenário no qual, diariamente, TVs, jornais e rádios estamparam a barbárie cometida contra mulheres em todo o país. Mulher assassinada e estuprada enquanto praticava exercício; duas mulheres mortas pelo colega que não aceitava ser chefiado por mulheres; uma mulher grávida e crianças mortas em um incêndio criminoso; uma mulher arrastada por mais de um quilômetro pelo ex-companheiro  e tantos outros casos que nos atravessam, nos impactam e nos paralisam.

A violência contra as mulheres segue brutal, cotidiana e escancarada. Mulheres violentadas e estupradas por grupos misóginos, como os chamados red pills, tornam-se combustível para o mundo virtual, alimentando algoritmos que fortalecem ainda mais o discurso de ódio contra nós. Misóginos têm espaço garantido para disseminar violência e as plataformas lucram com essa dinâmica. É uma internet que autoriza, pela falta de responsabilização, a continuidade desses crimes, porque a legislação atual não acompanha a velocidade nem a complexidade da violência digital.

As vítimas se tornam palco desses horrores e, no dia seguinte, desaparecem da narrativa pública. Já os feminicidas e agressores viram manchete, ganham fama, alimentam seguidores e fortalecem o imaginário que culpa as próprias mulheres pela violência que sofrem. Em pleno século XXI, ainda assistimos à sociedade responsabilizar mulheres vítimas de feminicídio ou tentativa de feminicídio  porque “não denunciaram”, “não saíram antes”, “voltaram para o agressor” ou, quando conseguem romper, porque “reconstruíram a vida”. A mensagem é sempre a mesma: a culpa é da mulher.

A verdade é que não existem condições adequadas de acolhimento, suporte psicológico, autonomia econômica, políticas de prevenção ou redes de proteção que garantam às mulheres caminhos reais para romper o ciclo da violência. A legislação falha, demora e não alcança a complexidade da violência de gênero especialmente a violência digital, que cresce sem freios e sem responsabilização efetiva.

No Rio Grande do Sul, estado que ocupa o 5º lugar no índice de violência contra as mulheres, os números são alarmantes. Segundo dados do Observatório da Lupa Feminista, até o fim de novembro deste ano, 78 mulheres foram assassinadas, além das muitas que sobreviveram a tentativas de feminicídio  mulheres cujas sequelas físicas, emocionais e sociais ainda desconhecemos e que o Estado raramente acompanha.

Mudar essa realidade é urgente. Não existe enfrentamento à violência contra as mulheres sem responsabilização do Estado, sem políticas públicas consistentes, sem educação para igualdade de gênero e, principalmente, sem colocar os homens dentro do debate. A violência que mata, mutila, controla e silencia mulheres é produzida, ensinada e reproduzida por uma cultura que naturaliza a misoginia e transforma nosso sofrimento em espetáculo.

É hora de romper esse ciclo.
É hora de responsabilização.
É hora de transformar indignação em política pública.

Porque nenhuma mulher deveria sobreviver ao terror para só então ser vista.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A MISOGINIA VIROU MERCADORIA!


A imagem mostra uma mulher, vista de costas, parada em frente a uma parede revestida com azulejos. Ela observa um cartaz feito à mão onde se lê “Basta de feminicídio!”, acompanhado de uma marca de mão em vermelho e de uma hashtag escrita abaixo. A mulher veste um vestido às riscas coloridas e carrega uma sacola azul.  Abaixo da fotografia, há um título de coluna que discute como a misoginia — descrita como “ódio às mulheres” — tem sido transformada em mercadoria dentro do capitalismo digital. O texto é apresentado em letras vermelhas sobre fundo branco, com identificação da coluna e da autora.



Nosso primeiro texto publicado no Jornal Brasil de Fato RS.

O que vemos nas últimas semanas escancara um silêncio cúmplice diante da misoginia um ódio às mulheres que tem se fortalecido, transformando-se em mercadoria para o capitalismo digital. Homens cometem crimes bárbaros contra mulheres e, ainda assim, viram manchete, ganham visibilidade, engajamento e até seguidores. Enquanto isso, as vítimas são colocadas de lado, apagadas ou reduzidas a notas rápidas, e os algoritmos continuam impulsionando misóginos que lucram disseminando ódio em plataformas e grupos.


Os crimes recentes, que ceifam vidas, mutilam corpos e incluem violência sexual extrema, mostram como a misoginia virou espetáculo, palco do terror. Feminicidas e agressores ganham fama às custas de mulheres mortas, violentadas e, quando sobrevivem, muitas vezes mutiladas.

É o caso de Taynara Souza Santos, atropelada pelo ex-companheiro e arrastada por mais de um quilômetro. Ela teve as duas pernas amputadas pela gravidade dos ferimentos mais uma mulher que se torna pessoa com deficiência após uma tentativa brutal de feminicídio. Uma sobrevivente da violência que tenta nos destruir física, emocional e socialmente.

E o mais revoltante é perceber como, mesmo diante dessa crueldade, a sociedade insiste em naturalizar a misoginia. Surgem justificativas, insinuações, dúvidas sobre a vítima. A violência extrema é tratada como tragédia isolada, quando na verdade é fruto direto do machismo estrutural que organiza nossa sociedade.

As plataformas digitais, que lucram com o ódio viralizado, tornam-se cúmplices ao permitir que discursos antifeministas circulem com força, criando comunidades inteiras dedicadas a atacar, humilhar, perseguir e incentivar violência contra mulheres. A misoginia virou conteúdo, entretenimento, negócio e isso exige que nossa luta enfrente não só os agressores, mas também os sistemas que alimentam e amplificam essa violência.

Histórias como a de Taynara seguem se repetindo. As que sobrevivem carregam marcas físicas e emocionais de uma violência que tenta nos calar, controlar e destruir. E, quando sobrevivem, enfrentam também o capacitismo, o abandono do Estado e a invisibilidade da mídia.

Não podemos permitir que a misoginia continue sendo espetáculo, e que a violência contra nós seja monetizada.

Nosso compromisso é com a memória das que se foram, com a proteção das que ainda vivem e com a luta das que sobrevivem. Seguimos denunciando, nomeando e enfrentando.
Porque nossas vidas não são mercadoria e nossos corpos não são território de violência.

Movimento Feminista Inclusivass

Texto publicado na Coluna das Inclusivass no Jornal Brasil de Fato, em 06/12/2025