sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Diálogo Virtual: A beleza não pode ser roubada


Descrição da foto #PraCegoVer Imagem vertical. Sob uma luz tênue, Ewelin Canizares está em pé, de perfil e, mostrada da cintura para cima, tem os olhos fechados e sorri com prazer. É uma jovem de pele clara. Os cabelos cacheados estão soltos sobre os ombros. Tem sobrancelhas grossas e levemente arqueadas. Os lábios grossos estão entreabertos num sorriso. Veste um corpete tomara que caia preto com bordados circulares e brilho. Seu rosto está levemente inclinado para a esquerda e os olhos estão fechados.











"Que olhar é esse que de dentro de mim me espia?
 Que olhar é esse que me afasta de mim? E são tantos os olhares a inquietar, desafiar, sufocar, amedrontar, sem ver”

Esse trecho do poema da jornalista Lelei Teixeira, na apresentação para a exposição TODAS SÃO TODAS,  sob o título “A beleza não pode ser roubada”, inspirou a nós, do Grupo Inclusivass e do Coletivo Feminino Plural, a continuar na indagação.



O que é beleza afinal? Ou, como também escreveu Lelei:

 “Tão múltiplas e, ao mesmo tempo, tão iguais a todas as outras na sua subjetividade. Maduras, profissionais, recolhidas, inseguras, curiosas, inquietas, destemidas, tímidas, livres, apaixonadas, mães, amantes”.


Do dia 10 de dezembro de 2016, Dia Internacional dos Direitos Humanos, ao dia 8 de março de 2017, Dia Internacional da Mulher, vamos manter em nosso espaço virtual www.inclusivass.blogspot.com.br
a discussão ampla, aberta a toda a diversidade entre as mulheres.


Participe!



As fotos da exposição TODAS SÃO TODAS,  bem como o texto na íntegra da jornalista Lelei Teixeira estão acessíveis clicando AQUI 



Descrição da foto #PraCegoVer Imagem vertical. Em um bar, Fernanda Vicari aparece de perfil, sentada em sua cadeira de rodas. É uma jovem com cabelos curtos, cacheados e com algumas mechas claras; as sobrancelhas são finas e delineadas, e a maquiagem ressalta seus grandes olhos. Usa batom escuro, seus lábios são grossos e estão fechados. O rosto tem um semblante sério. Está com vestido estampado e sobre ele um blazer claro. Com a mão esquerda segura um copo com bebida. Atrás dela, imagem desfocada do interior do bar com mesas, cadeiras, espelhos e dois lustres.





domingo, 4 de dezembro de 2016

Inclusivass na Campanha "16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres" (novembro e dezembro de 2016)

EXPOSIÇÃO:
TODAS SÃO TODAS
“A beleza não pode ser roubada”

A exposição TODAS SÃO TODAS foi inaugurada em 5 de dezembro de 2016, às 18h, no Memorial do Legislativo, localizado na Rua Duque de Caxias, 1029, ao lado do Solar dos Câmara, em Porto Alegre (RS).

Período da mostra: de 5 a 9 de dezembro de 2016.

Confira fotos e informações sobre a Exposição TODAS SÃO TODAS clicando AQUI.

Na abertura do evento, Luciana Silveira Alberton – uma das mulheres retratadas na exposição e que aparece na foto abaixo - fez uma apresentação de dança.





Descrição da foto #PraCegoVer Imagem horizontal. Sob fundo desfocado, em primeiro plano, Luciana Alberton aparece de perfil até a altura do peito. Ela une os cotovelos e toca os ombros com as mãos.É uma moça de pele clara, de cabelos negros, lisos e longos, que escorrem por suas mãos em direção às costas. A cabeça está levemente inclinada para trás, usa óculos de armação larga preta, tem lábios finos e usa batom escuro. Veste uma camiseta preta de mangas claras e curtas. Atrás dela, imagem desfocada de uma parede clara com cadeiras, quadros e espelho.


A exposição marca o reconhecimento da presença das mulheres com deficiência na sociedade. É um convite para questionar o lugar de passividade atribuído a elas, e para construir novas visões através do seu protagonismo. 

Formada por 30 fotos, reúne imagens de 11 mulheres que se apresentam de corpo e alma para a lente da fotógrafa Daiane Peixoto. 

A mostra de fotos faz parte do projeto TODAS SÃO TODAS, que tem como objetivo promover a incorporação da perspectiva e das necessidades específicas das mulheres com deficiência às políticas existentes de enfrentamento à violência doméstica e às demais políticas públicas para as mulheres.





Confira a seguir outras atividades do Grupo Inclusivass dentro dos 16 DIAS DE ATIVISMO: 





Exibição do filme "Carol" seguida de debate 

Descrição da foto #PraCegoVer  Integrantes do Grupo Inclusivass, do Coletivo Feminino Plural e participantes do evento realizado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul posam para uma foto coletiva atrás de um balcão disposto em formato de U onde está pendurado o banner do projeto TODAS SÃO TODAS. As integrantes do Grupo Inclusivass vestem camiseta com o logotipo do TODAS SÃO TODAS. Algumas estão segurando a Cartilha de Direitos Sexuais e Reprodutivos e o folder de apresentação do projeto TODAS SÃO TODAS. 


Para acessar todas as fotos deste evento, clique em https://www.facebook.com/media/set/?set=a.679789962188695.1073741849.359483010886060&type=1&l=c45aabac2c



Descrição da foto #PraCegoVer Foto de Carol Santos de lado,
com os olhos lacrimejando, emocionada, falando.


O filme "Carol" foi exibido no dia 29 de novembro de 2016 no Espaço de Convergência, sala Adão Pretto da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. Dirigido por Mirela Kruel, o filme conta a história de vida de Carolina Santos, ou Carol, como é mais conhecida, coordenadora do Grupo Inclusivass e integrante do comitê do Observatório da Violência Obstétrica no Brasil.






Descrição da foto #PraCegoVer Integrantes do Grupo Inclusivass na frente de vidro da Adão Pretto onde se vê o brasão símbolo do Estado do Rio Grande do Sul. De pé, da esquerda para a direita: Ewelin, Deia, Josiane, Cristina, Regina. Sentadas, da esquerda para a direita: Vitória, Fernanda, Carol (que segura uma das mãos de Josiane) e Liza.


Descrição da foto #PraCegoVer A foto mostra parte do cabelo
branco de uma mulher, de costas, que folheia as páginas
da Cartilha


Após a apresentação do filme, as integrantes do Grupo Inclusivass apresentaram o projeto TODAS SÃO TODAS, de inclusão das mulheres com deficiência nas políticas de enfrentamento à violência doméstica e demais políticas, e falaram sobre a Cartilha "Mulheres com Deficiência - Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos".








A atividade integrou a Campanha 16 DIAS DE ATIVISMO pelo FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES. Foi uma promoção do Grupo Inclusivass, Coletivo Feminino Plural, HeforShe, e Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa do RS


#PraCegoVer Abaixo, um trailer o filme "Carol"







A Cartilha "Mulheres com Deficiência - Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos" é uma realização do Grupo Inclusivass, Coletivo Feminino Plural e Programa de Gênero e Religião das Faculdades EST.

A Cartilha traz informações sobre o que é e quais são os tipos de deficiência, e como se dá a interseção com violência de gênero, diversidade sexual, religião, direitos sexuais, direitos reprodutivos, direito de atenção à saúde, além de trazer uma lista de telefones e endereços úteis das redes de atendimento.

A Cartilha está disponível para download em 
http://inclusivass.blogspot.com.br/p/documentos.html








CAMPANHA #NemUmaAMenos
 TODAS VIVAS!!



No dia 25 de novembro de 2016, integrantes do Grupo Inclusivass participaram das atividades unificadas pelo Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher



Descrição da foto #PraCegoVer Integrantes do Grupo Inclusivass e demais participantes da campanha unificada das mulheres caminham na Avenida Borges de Medeiros, em Porto Alegre (RS). Ewelin Canizares carrega o cartaz "Mulheres Sem Temer", Josiane França aparece um pouco atrás, ao lado de Florência, que carrega o cartaz "TODAS SÃO TODAS".

Confira mais fotos desta atividade clicando em
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.676644975836527.1073741848.359483010886060&type=1&l=44ef94e6c0







SAIBA MAIS SOBRE A CAMPANHA DOS 16 DIAS DE ATIVISMO:

Em 1991, mulheres de diferentes países, reunidas pelo Centro de Liderança Global de Mulheres, dos Estados Unidos, iniciaram a Campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher”, com o objetivo de promover o debate e denunciar as várias formas de violência contra as mulheres no mundo.  O período escolhido para a Campanha é bastante simbólico, já que se inicia no dia 25 de novembro – declarado como o dia Internacional de Não Violência Contra as Mulheres – e finaliza no dia 10 de dezembro – dia Internacional dos Direitos Humanos. Desta forma, é feita uma vinculação entre a luta pela não violência contra as mulheres e a defesa dos direitos humanos.

No Brasil, a Campanha é realizada desde 1998, quando a ONG Coletivo Feminino Plural lançou as primeiras ações em Porto Alegre. Em 2003 até 2009, esta ação ganhou abrangência nacional, coordenada pela ONG Agende, e passou a ser comemorada sempre a partir dia 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, de forma a apoiar as mulheres negras em sua luta contra o racismo. Atualmente os movimentos tomam iniciativas e promovem as próprias ações.

(Fonte: Coletivo Feminino Plural - clique sobre o nome da entidade para acessar o site)



A história de Carol (Reportagem do Sul21)

Como Carol foi de vítima de violência de gênero a ativista – em cadeira de rodas


Reportagem publicada no Sul21 em  3/dez/2016, 15h10min
Para acessar a reportagem original clique AQUI.

Fernanda Canofre




Legenda: Carol Santos abriu a porta de casa para receber o Sul21 e contar sua história. Foto: Maia Rubim/Sul21/ Descrição da foto #PraCegoVer Foto horizontal. Carol está sentada na entrada de sua casa, em frente à porta, que está aberta, deixando entrar uma luz vinda da rua. 


Carol chega em frente ao seu computador para começar a escrever o livro da sua história e nada. Na área de trabalho, uma pasta guarda ideias e anotações que ela reúne há anos para colocar dentro dele. Todos, passagens de capítulos mais a frente. O problema é o início.
“Não sei se começo abrindo os olhos, com o Marcelo me tocando, eu não consigo iniciar a minha história contada em um livro. Eu posso até começar, mas não consigo continuar”, diz ela, batom roxo nos lábios, olhos pintados, cabelo vermelho longo cuidadosamente jogado para o lado. A imagem de uma mulher independente e vaidosa, que convive com uma cadeira de rodas há 16 anos.

O bloqueio de Carol tem duas causas: a primeira é a dificuldade de enfrentar um momento da vida em que ela não conseguiu manter os olhos abertos; a segunda é a agenda lotada de ativista, mãe e dona de casa que consome todo o tempo em que passa acordada.

O currículo é longo. Carol ajudou a criar e é parte da coordenação do grupo Inclusivass – voltado a lutar por acessibilidade e direitos de mulheres com deficiência, parte do Coletivo Plural. Trabalha com um projeto que atende mulheres vítimas de violência e com deficiência física – o único entre 33 selecionados da América Latina a incluir mulheres deficientes – e integra o Comitê sobre Violência Obstétrica no Brasil. Ainda escreve em um blog, publica artigos, faz palestras, acaba de lançar um filme com sua história e cria sozinha o filho Robert, de 3 anos. “Mãe cadeirante”. “Deficiente/Eficiente”. “Carol Diversidade”, como ela mesma se define em suas páginas online.

Carol descobriu o ativismo feminista quando encontrou por acaso um flash mob para alertar sobre feminicídio e violência de gênero, organizado pelo Coletivo Plural, no centro de Porto Alegre, em 2012. “Estavam todos deitados [no chão] e eu deitada do meu jeito. Naquele dia, eu consegui perceber que toda essa história que carreguei comigo durante 12 anos, de sentir aquela culpa, eu consegui me redescobrir, saber que não era culpada, que eu era vítima”, conta ela hoje.

O dia que mudou tudo na vida de Carol Santos foi uma manhã de domingo, calma e quieta em boa parte de Porto Alegre. Era 23 de abril de 2000.

O outro começo

Carol conheceu “Fulano” – como ela chama o homem de quem se nega a pronunciar o nome – quando tinha 15 para 16 anos. Ele era colega de escola da irmã mais nova dela, tinha 14 para 15 anos e não demorou para começarem a namorar. “Foi tipo amor à primeira vista. Ele me mandava toda semana cartas pelo correio, mesmo morando no mesmo lugar”, lembra.

Os dois também viviam histórias parecidas então. Os pais de ambos se separaram. Carol foi viver com a mãe, sem ter com quem ficar, “o fulano” se mudou para a casa delas e os problemas começaram. Cedo o namorado começou a demonstrar ciúmes “excessivos”. “Ele controlava as roupas que eu vestia, quando saía comigo, grudava do lado para que os outros homens não me olhassem e foi mostrando isso. Ele tentava me dominar e eu sempre fui muito independente”, diz ela.

Quando Carol começou a trabalhar fora, com quase 18 anos, sentiu que a situação estava a sufocando. Assim que chegava do trabalho, ele estava na parada de ônibus a espera. Não havia mais nenhum momento sozinha, nem espaço, nem tempo para isso. Por mais que a incomodasse, parecia amor, cuidado, carinho. Ela ainda não conseguia entender como abuso, parecia normal. Assim como parecia normal ter que transar com o namorado, mesmo quando ela não queria. Casais faziam dessas coisas, ela pensava.

Foi nesse momento da vida que Carol conheceu e se apaixonou por Marcelo, um colega no emprego novo. Levou ainda 4 meses para ela decidir dar um basta no relacionamento abusivo em que estava e resolver ficar com ele. O namoro dos dois durou 4 dias.

Uma semana antes de Carol e Marcelo começarem a namorar, o ex, capinando a grama do pátio da casa de Dona Vera, mãe dela, já havia avisado: “o dia que a Carol me largar, eu vou matar ela”.

No primeiro e único domingo de manhã que Carol teve com Marcelo, ela viu uma sombra conhecida parada na porta de casa. Para evitar brigas entre o novo namorado e o ex, levou “o fulano” para o pátio da casa para conversar. O novo namorado de Carol pediu que o ex fosse embora e a deixasse em paz. Depois de uma discussão entre os dois, parecia que as coisas iriam enfim sossegar. Ainda assim, Carol teve uma sensação estranha, fechou todas as janelas e portas da casa, por precaução. Ela esqueceu só a janela do quarto da mãe aberta.

Foi por ali que poucos minutos depois, viu o ex voltar com arma em punho. Foi por ali que Carol ficou cara a cara com ele, arma encostada contra sua testa, tentando negociar, pedir que ele fosse embora, impedir que ele conseguisse entrar.

“Ele dizia: Carol, eu vou atirar, eu vou te matar. E eu corri. Quando eu corri, ele atirou. Eu já caí na hora. Já perdi na hora o movimento das pernas. Foi tudo muito rápido. Eu lembro que senti aquele estouro, aquele barulhão e aquela coisa me queimando e caí. Daí, eu lembro que – fiquei consciente o tempo todo – eu vi o Marcelo e ele disse pra mim: Carol, ele vai te matar. Ele nem pensou nele, pensou em mim. Eu fechei os olhos para não ver o Marcelo morrer. Depois que eu fechei os olhos, não escutei mais nada”, conta ela.

A vida depois

Depois de matar Marcelo com dois tiros, atirar contra Carol, o ex dela disparou contra a própria cabeça, em frente à casa. Demorou ainda dois dias para que ele morresse, no hospital. O tempo todo, as camas dele e de Carol ficaram no mesmo quarto, viradas uma para a outra. Nos jornais, o crime era tratado como “passional”. Crime motivado por “emoção ou paixão”, segundo o artigo 28 do Código Penal Brasileiro.

Carol ainda passaria meses entre cirurgias e cuidados. Quando recebeu alta, voltar para a casa era voltar para a memória daquela manhã de domingo. A mãe dela conseguiu então uma outra casa para viverem, enquanto a delas era reconstruída, para apagar as cenas da tragédia. A nova casa, porém, ficava no meio de uma ladeira, na Vila dos Sargentos. Com dificuldade para sair com a cadeira de rodas pesada, que ainda não aceitava, Carol passou a ir para a rua apenas a cada seis meses.

“Eu demorei pra aceitar, pra voltar a viver, foi tudo difícil. Porque naquela época, eu só fiquei sabendo que eu não ia andar e ‘vai pra casa’. Eu fiquei cheia de escara, porque usava fralda grande, eu não sabia que eu podia fazer xixi com sonda, eu não sabia que eu poderia fazer cocô com estímulo ou remédio ou auxílio, eu ficava, às vezes, 15 dias sem ir aos pés, ia para o hospital mal. Sempre com infecção urinária. Sem informação nenhuma”, relembra hoje.

De tanto ouvir que precisava sair de casa, Carol resolveu voltar a estudar e terminar o Ensino Médio. A realidade a encontrou. Quando começou a busca por escolas, viu que nenhuma era adaptada. Pior, nenhuma parecia disposta a receber uma aluna cadeirante que precisaria de suporte. Foi a fase da vida a qual ela mesma se refere como “a batalha do estudo”. Demorou quase um ano para que Carol encontrasse uma escola, seis anos depois de ter perdido o movimento das pernas.

Carol precisou conhecer um senhor cadeirante que a encorajava a sair de todo jeito, para que fosse para a rua. Precisou entender que tinha direito de brigar com as companhias quando o ônibus vinha com o elevador para deficientes físicos estragado. Precisou começar a escrever em um blog, para colocar para fora boa parte do que é viver sempre “braba” para ter direito de fazer coisas simples – como ir à casa da irmã ou ao médico – respeitado. Depois do tiro que acertou sua coluna, essa era sua nova vida.

Com três pontos de lotação e dois de ônibus perto da porta da casa onde vive com o filho no Belém Novo, hoje, depois de muita dificuldade, ela diz que “está bem servida”. O que ainda a incomoda é a maneira que os cobradores falam com cadeirantes. “Eles perguntam onde vou descer, explico que vou descer em tal parada: ‘ah, a cadeira vai descer!’ Podiam falar o cadeirante, podiam perguntar o meu nome. A terminologia que é usada pelos funcionários… é muito forte. Pô, a ‘cadeira’? Cadê a pessoa nessa cadeira?”, se indigna.

O capacitismo e a dor do parto

Carol aprendeu a ser independente, arrumou uma casa para morar sozinha, encontrou grupos de militância e ativismo que viraram seu lugar e decidiu ser mãe. Antes de ser uma mulher com deficiência, em uma cadeira de rodas, ela era uma mulher capaz de suas próprias decisões.

Mas não foi bem assim que o mundo a recebeu. Primeiro, escutou muito durante a gravidez, “como ela iria cuidar do filho? Ela devia estar louca”. Depois, encontrou aparelhos de exames ginecológicos que não eram adaptados para ela. Atendida em um hospital da rede pública, Carol também voltava a cada consulta para encontrar um médico novo na sala. Nenhum parecia saber do caso dela. Quando a infecção urinária de sempre piorou, os médicos a encheram de remédios. Nenhum citou que aquilo poderia colocar a vida do bebê em risco.

Que a própria gravidez seria de alto risco, Carol já sabia desde o início: “Principalmente pela condição física, é um corpo parado gerando uma criança. Poderia ter trombose, aumento da pressão e eu tive pré-eclâmpsia”.

Sem muitas informações dos médicos, Carol começou a procurar por conta própria grupos de gestantes no Facebook atrás de ajuda. Acabou encontrando Nani, uma doula, que se prontificou a ajudá-la. Juntas, as duas criaram um plano de parto. Quando a bolsa estourou – e ela estava sozinha em casa – já sabia o que fazer.

A hora do parto de Carol não foi menos difícil que sua vida. Depois de 12 horas em trabalho de parto – com as dores das contrações somadas às dores de sempre – tentaram barrar a entrada de sua doula na sala. Como o pai do filho de Carol é deficiente visual, os médicos acabaram aceitando a presença dela para narrar o que acontecia a ele.

Para os médicos, o parto natural de uma mulher com paraplegia, era no mínimo curioso. O hospital inteiro parecia pensar da mesma forma. “O meu parto não foi privado, só para mim, para os médicos, o pai e a doula. Ele foi assistido por muita gente. Uma coisa que eu não autorizei. Quando eu vi a sala estava cheia e todo mundo falando ‘chama o fulano, está quase na hora’. O hospital todo pode ter acesso ao meu parto, sem meu consentimento”, diz Carol.

Na sala de parto, Carol virou a estatística de uma em cada quatro mulheres a sofrer violência obstétrica, no Brasil. Com dificuldade, os médicos abriram uma incisão em sua vagina. Sem dar tempo suficiente para ver como o corpo de Carol responderia, uma médica subiu em sua barriga para empurrar a criança. Carol diz que ainda sente dor no local, do lado esquerdo do corpo.

Quando o filho nasceu, com a cor de quem havia ficado sem oxigenação, foi levado para longe dela para ser tratado. “Eles demoraram para vir me limpar, eu com as pernas arregaçadas, fiquei ali. O Robert demorou para vir, por causa do procedimento. Eu fiquei sozinha, sem o meu filho e ninguém me dizia o que estava acontecendo”, lembra.

Quando os dois foram para casa, passados alguns meses, funcionários do posto de saúde perto da casa de Carol, chamaram ela e o Conselho Tutelar para avaliar se ela tinha condições de cuidar do filho. “Eu chorei muito na reunião, era meu filho e estavam me julgando por eu não ter condições de cuidar do meu filho”, diz Carol.

Carol por todas

Apesar de todas dores que colecionou pela vida, Carol ainda acorda todos os dias cheia de disposição. Durante a entrevista, mesmo nas memórias difíceis, mantém-se firme e resoluta em contar sua história. O que a move é a vontade de mudar o cenário geral para outras mulheres como ela. “Vivemos rotuladas, vivemos invisibilizadas. Ainda existe esse rótulo quanto às mulheres com deficiência, principalmente ao ser mãe, ao querer sair de casa, ao querer trabalhar”, avalia.

O trabalho dentro do Inclusivass é um meio para tentar quebrar esses rótulos. Há alguns meses, as mulheres do grupo se reuniram para fazer uma inspeção surpresa na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, localizada no Palácio da Polícia, na Avenida Ipiranga. Chegando lá, perceberam que Carol e sua cadeira não teriam acesso ao local. Ela acabou sendo atendida na rua, porque não havia ninguém que ajudasse a levá-la quatro lances de escada acima. Depois da visita, elas abriram um inquérito civil no Ministério Público para denunciar a falta de acessibilidade.

Liza Cenci, colega de Carol no Inclusivass e presidente do Conselho Municipal para Pessoas com Deficiência, também cadeirante, diz que os problemas de acesso estão em todo lugar. E é muito pior para as mulheres. Aparelhos de mamografia não são adaptados a elas, postos de saúde também não possuem rampas ou aparelhos adaptados, as cadeiras ginecológicas muitas vezes não podem recebê-las.

“As empresas ainda têm medo de contratar mulheres com deficiência. A nossa mobilidade é dificultada, porque as calçadas estão em péssimas condições. A atitude das pessoas é de não te deixarem viver em sociedade. Pegar uma linha de ônibus, em Porto Alegre, logo no início o motorista dá a entender que não estava funcionando (o elevador) para não te carregar. Se tem algum compromisso, como médico, tu perde”, diz Liza, que vive no Centro da cidade e evita sair de casa por causa das dificuldades.

Nesta semana, as mulheres do Inclusivass se reuniram na Assembleia Legislativa para assistirem juntas – com legenda e audiodiscrição – ao filme “Carol”. O filme, que foi produzido com apoio da Casa, foi apresentado este ano no Festival de Cinema de Gramado, que ganhou adaptação de palco e acessos para recebê-la. Carol também se prepara para em breve estar em uma das campanhas da Avon, revendedora internacional de cosméticos.

“Às vezes eu digo, é muita coordenação para uma pessoa só. Ainda tenho tempo de ser mãe, ser dona-de-casa, apesar de eu não gostar dessa palavra, e de me cuidar”. Hoje, ela vive de olhos bem abertos.

Carol Santos. Foto: Maia Rubim/Sul21 / Descrição da foto #PraCegoVer  Foto horizontal, mostra Carol de perfil, olhando para a direita, com os cabelos longos e vermelhos colocados para o lado. Uma luz está sobre o lado esquerdo do rosto. 


sábado, 3 de dezembro de 2016

Dia Internacional das Pessoas com Deficiência- Mulheres com Deficiência.


Foto do grupo:
Em meia lua uma ao lado da outra.
Vitória, Ewelin, Fernanda,Daia,Josy,Carol,Cris,Regina e Liza.

Hoje um dia para não esquecermos, para refletirmos, nos questionarmos e não nos inquietarmos sobre este espaço que ocupamos enquanto mulheres com deficiência, e sobre a acessibilidade tão inacessível para quem precisa.
Em 1988, a Organização das Nações Unidas (ONU) institui a data com a proposta de provocar a reflexão sobre o tema especialmente, estimular a inclusão na sociedade.
No dia de hoje e dos demais 364 dias somos desafiadas diariamente ao sairmos de casa e nos depararmos em uma sociedade que nos inviabiliza e nos silencia.

Mas que silêncio é esse que estamos falando?

O silêncio que nos aprisiona pela falta de acessibilidade, entre elas a atitudinal que vem acompanhada de discriminação e que nos coloca no lugar de inferioridade e exclusão total.
Este silêncio atualmente se rompe pelo grito de luta das mulheres com deficiência vem se fortalecendo, buscando o empoderamento e a união deste movimento e ganhando espaço junto aos outros movimentos de mulheres, espaço este até ontem somente de mulheres sem deficiência na sua diversidade e que vem se somando aos poucos.
Sabemos que temos muito a avançar nessa caminhada que busca pelo direito à educação, trabalho, saúde, ao esporte, ao lazer acessível, ao cuidar de sua família, de viver sem violência, igualdade de gênero e direito de expressar este silêncio.
Estamos construindo esta história na busca pelo direito de apenas ser que é garantido por lei e que ainda nos impossibilita de acessá-lo.
Em 2008, o Brasil ratificou a Convenção Internacional das Pessoas com Deficiência buscando garantir condições de vida com dignidade.
A Convenção reafirma os princípios universais (dignidade, integralidade, igualdade e não discriminação) e torna obrigação dos governais, garantir a política para as pessoas com deficiência e a sensibilização da sociedade para a deficiência
A Lei Brasileira de Inclusão(LBI) completou um ano, mas só foi sancionada depois de 15 anos de tramitação para se tornar lei e garantir os direitos das pessoas com deficiência.

Mas porque ainda esbarramos a exclusão?

A falta de preocupação por parte do estado em garantir as políticas públicas para as pessoas com deficiência é o primeiro empasse, a falta de repasses para os conselhos dificultam a articulação do movimento e difusão do tema, a falta de fiscalização para garantir essas leis seria fundamental e claro novamente esbarramos na falta de garantia de nossos direitos.

E as mulheres com deficiência onde ficam?

Infelizmente as mulheres com deficiência esbarram na invisibilidade do estado e da sociedade o que torna essas mulheres mais vulneráveis a sofrerem todos os tipos de violações aos seus direitos, as políticas públicas para as mulheres existem mas não dão conta de especificidade de cada mulher o que as deixa de fora dessas políticas.
É preciso olhar para a diversidade das mulheres e garantir a todas esses direitos.
Há dois anos o Grupo Inclusivass formado por mulheres com deficiência luta pelo empoderamento, direitos humanos e igualdade de gênero.
Articulado através do Seminário para as Mulheres com Deficiência e Políticas Públicas essas mulheres representantes de movimentos, entidades e conselhos sentiram a necessidade de criar o grupo.
No encontro elaboraram a “Carta das Mulheres com Deficiência do RS”, que traz 21 propostas de políticas públicas para as mulheres com deficiência.
Somos silenciadas quando vemos que ainda não conseguimos tornar realidade nenhuma destas propostas, quando não conseguimos acessar um serviço especializado as mulheres vítimas de violência pela falta de acessibilidade arquitetônica e atitudinal, quando não acessamos os serviços de saúde falta de aparelhos adaptados.
Este ano o grupo teve um grande desafio em seu primeiro projeto que trouxe um tema tão invisibilizado ainda pelas próprias mulheres com deficiência falar das políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres com deficiência.
O projeto Todas São Todas que tem apoio do Fundo Social Elas, Instituto Avon e Coletivo Feminino Plural tem como objetivo incluir as demandas e necessidades das mulheres com deficiência nas políticas de enfrentamento.
O grupo durante o ano desenvolveu atividade com este tema, alertando a sociedade que as mulheres com deficiência sofre 3x mais violência que as outras mulheres.
Por serem mulher e mulher com deficiência estão mais vulneráveis a sofrerem com as desigualdades e discriminações e violações de seus direitos.
Essas violações de direitos estão presentes na hora da mulher com deficiência decidir sobre seu corpo, de querer ou não ter filhas(os), o aborto que é tão condenado e considerado um crime, no caso de uma mulher com deficiência decidir por engravidar em muitos casos é aconselhada a abortar e o que é crime para as mulheres em geral para essas mulheres é algo normal.
A violência sexual é outro agravante no caso das mulheres com deficiência pois sobe para 3 em cada dez. Ao testemunharem ao seu próprio favor a  falta de credibilidade acompanhada de desvalor faz com que essas mulheres permaneçam sobre violência.
A Lei Maria da Penha, que trata da violência doméstica e familiar, prevê pena aumentada em um terço caso a vítima seja mulher com deficiência.
Temos leis e mais leis que não nos protegem de vivermos todas as desigualdades por isso continuaremos na busca incansável por nossos direitos.


Carolina Santos
Coordenadora do Grupo Inclusivass






sábado, 19 de novembro de 2016

Colóquio sobre "Representatividade das Mulheres com Deficiência" na Feira do Livro de Porto Alegre (RS)


As Inclusivass Liza Cenci e Vitória Bernardes falaram sobre a "Representatividade das Mulheres com Deficiência" na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre (RS) em 6 de novembro de 2016.  Durante o colóquio, apresentaram o projeto TODAS SÃO TODAS. 


Algumas falas de Liza e Vitória:


"Como cadeirante, demorei três anos para poder ir a uma reunião na escola do meu filho, até que fizeram uma rampa de acesso. Não poder entrar na escola, isso é tirar o meu direito" *(Liza)

"Fizemos uma intervenção na Cidade Baixa e vimos como é difícil o acesso (leia sobre esta intervenção clicando AQUI). Para a maior parte das pessoas, antes de sair pra um bar a preocupação é com que roupa vão. Para nós, é se vai ter ou não rampa, se vamos conseguir entrarl" (Vitória)

"Os postos de saúde não têm macas na altura adequada, não têm equipamento médico acessível. A gente não é vista pela sociedade" (Liza)

"As mulheres com deficiência não aparecem nas novelas, por exemplo. Não aparecem em lugar nenhum. Muitas vezes se sujeitam a relações abusivas dizendo: 'pelo menos ELE me quis". (Vitória)

"É por isso que a gente luta: para quebrar paradigmas" (Liza)






#PraCegoVer As fotos foram tiradas dentro da sala de vídeo do Memorial RS, onde aconteceu o Colóquio. Mostram Liza e Vitória na frente de cadeiras onde estão sentadas pessoas assistindo. Em uma das fotos, Liza está segurando um folder onde se lê TODAS SÃO TODAS. Em outras fotos (ao lado e abaixo), aparecem pessoas que estavam na plateia, assistindo. Na foto abaixo, elas aparecem lendo o folder do projeto.











O colóquio sobre a Representatividade da Mulher com Deficiência foi destaque na página da Feira do Livro de Porto Alegre. Confira AQUI

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

INCLUSIVASS no Observatório da Violência Obstétrica


A coordenadora do Grupo Inclusivass, Carolina Santos (Carol), integra o comitê do Observatório da Violência Obstétrica no Brasil, representando as mulheres com deficiência. O Observatório foi lançado em 3 de novembro de 2016, em Porto Alegre (RS). Na ocasião, Carol fez um breve relato das dificuldades que enfrentou no parto de seu filho.




Descrição da foto #PraCegoVer  No canto esquerdo da foto aparece Carol Santos. Ela está de lado, olhando para a frente. Ao fundo aparecem outras mulheres sentadas a seu lado, na plateia do auditório onde foi o lançamento do Observatório. (fim da descrição)




O Observatório da Violência Obstétrica no Brasil tem como objetivo discutir, dialogar e articular junto à sociedade civil e o Sistema Único de Saúde sobre a qualidade da assistência prestada às mulheres em seus processos de gestação, parto e abortamento. Integra a proposta da Rede Internacional de Observatórios da Violência Obstétrica, e vincula-se a um Projeto de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Equipe:

Grupo Impulsor
Camilla Alexsandra Schneck (Coordenação)
Letícia Becker Vieira (Coordenação)
Maria Gabriela Curubeto Godoy
Telia Negrão
Lara Werner
Comitê da Sociedade Civil
Carol Santos
Emanuelle Aduni Goes
Janaína Marques de Aguiar
Maria Helena Bastos
Maria Luiza de Oliveira
Renata Jardim
Rubia Abs da Cruz
Ticiana Oswald Ramos
Vera Daisy Barcellos
Virgínia Leismann Moreto




Saiba mais sobre o Observatório da Violência Obstétrica

Nas fotos abaixo, alguns momentos do lançamento do Observatório:










INCLUSIVASS no 1º Encontro Estadual sobre Nanismo em Porto Alegre (RS)

Descrição da foto #PraCegoVer Lelei Teixeira está sentada em uma poltrona cor roxa, e tem na mão direita um microfone e na mão esquerda uma folha de papel. Ela parece estar lendo a folha de papel. A seu lado esquerdo aparece parte de outra pessoa sentada também. E, ao fundo, um pedaço de um banner com o símbolo do Estado do RS (fim da descrição).

A jornalista Lelei Teixeira, que escreve a coluna "Isso não é comum" (acesse aqui: http://issonaoecomum.sul21.com.br/) e integra o Grupo Inclusivass, falolu sobre MÍDIA E PRECONCEITO no 1º Encontro Estadual sobre Nanismo realizado em Porto Alegre (RS), no dia 3 de novembro de 2016, no auditório do Palácio da Justiça.

Confira aqui um trecho de sua apresentação:

Como lidar com o que chamamos de deficiência e tudo o que decorre dela, evitando o paternalismo, o fetiche, o clichê, o heroísmo, a vitimização, o estereótipo, o sensacionalismo ou o constrangimento? 
Há que se ter sabedoria para lidar com uma condição delicada, às vezes jogada em uma espécie de limbo, onde permanece intocável, invisível, pela dificuldade do enfrentamento.
A mídia, formadora de opinião para o bem e para o mal, tem um papel muito importante neste sentido: mostrar a vida como ela é, tratar de questões que envolvem a deficiência e o preconceito com naturalidade e verdade, denunciar, apontar leis que preservam os direitos das pessoas com alguma dificuldade, não alimentar mitos, nem transformar as pessoas diferentes em vítimas, super homens ou mulheres, guerreiros a serem admirados. 
Precisamos estar atentos aos efeitos do discurso dos meios de comunicação sobre a nossa condição. É necessário mostrar, instigar, fazer pensar, evitando o sensacionalismo e o desgastado discurso da superação, que não contribuem em nada para causa nenhuma.
Os anões são quase invisíveis e pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores pela sociedade, pelos governos, pela imprensa.
Mas são absurdamente lembrados quando o assunto é fazer rir a qualquer custo.
Pela fala de alguns comunicadores, não é delegado ao anão um comportamento humano. Os comentários são típicos de quem só está interessado no estereótipo, na gargalhada fácil. Ironizam grosseiramente a condição de vida dos anões, demonstrando farta ignorância sobre a diferença e a deficiência. Precisam preencher um espaço, garantir a audiência, ser interessantes o tempo todo, num vale tudo cruel.

Descrição da foto #PraCegoVer À esquerda, aparece Lelei sentada, lendo um papel, e, a seu lado, quatro pessoas sentadas, todas participantes do painel sobre Mídia e Preconceito.