terça-feira, 9 de dezembro de 2025

 

Card com fundo preto com o desenho da bandeira do Brasil em traços brancos. No centro, onde normalmente aparece a faixa com o lema da bandeira, está escrito “Não há dia de paz”. A faixa está manchada por um filete de sangue vermelho que escorre para fora do círculo, marcando a imagem com gotas que caem até a parte inferior. Abaixo, em letras grandes e brancas, aparece a palavra “MULHERES”, parcialmente coberta por uma mancha vermelha que simboliza sangue. No topo da imagem estão os logos do Inclusivass e do Fundo Elas+.

Os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher aconteceram em um cenário no qual, diariamente, TVs, jornais e rádios estamparam a barbárie cometida contra mulheres em todo o país. Mulher assassinada e estuprada enquanto praticava exercício; duas mulheres mortas pelo colega que não aceitava ser chefiado por mulheres; uma mulher grávida e crianças mortas em um incêndio criminoso; uma mulher arrastada por mais de um quilômetro pelo ex-companheiro  e tantos outros casos que nos atravessam, nos impactam e nos paralisam.

A violência contra as mulheres segue brutal, cotidiana e escancarada. Mulheres violentadas e estupradas por grupos misóginos, como os chamados red pills, tornam-se combustível para o mundo virtual, alimentando algoritmos que fortalecem ainda mais o discurso de ódio contra nós. Misóginos têm espaço garantido para disseminar violência e as plataformas lucram com essa dinâmica. É uma internet que autoriza, pela falta de responsabilização, a continuidade desses crimes, porque a legislação atual não acompanha a velocidade nem a complexidade da violência digital.

As vítimas se tornam palco desses horrores e, no dia seguinte, desaparecem da narrativa pública. Já os feminicidas e agressores viram manchete, ganham fama, alimentam seguidores e fortalecem o imaginário que culpa as próprias mulheres pela violência que sofrem. Em pleno século XXI, ainda assistimos à sociedade responsabilizar mulheres vítimas de feminicídio ou tentativa de feminicídio  porque “não denunciaram”, “não saíram antes”, “voltaram para o agressor” ou, quando conseguem romper, porque “reconstruíram a vida”. A mensagem é sempre a mesma: a culpa é da mulher.

A verdade é que não existem condições adequadas de acolhimento, suporte psicológico, autonomia econômica, políticas de prevenção ou redes de proteção que garantam às mulheres caminhos reais para romper o ciclo da violência. A legislação falha, demora e não alcança a complexidade da violência de gênero especialmente a violência digital, que cresce sem freios e sem responsabilização efetiva.

No Rio Grande do Sul, estado que ocupa o 5º lugar no índice de violência contra as mulheres, os números são alarmantes. Segundo dados do Observatório da Lupa Feminista, até o fim de novembro deste ano, 78 mulheres foram assassinadas, além das muitas que sobreviveram a tentativas de feminicídio  mulheres cujas sequelas físicas, emocionais e sociais ainda desconhecemos e que o Estado raramente acompanha.

Mudar essa realidade é urgente. Não existe enfrentamento à violência contra as mulheres sem responsabilização do Estado, sem políticas públicas consistentes, sem educação para igualdade de gênero e, principalmente, sem colocar os homens dentro do debate. A violência que mata, mutila, controla e silencia mulheres é produzida, ensinada e reproduzida por uma cultura que naturaliza a misoginia e transforma nosso sofrimento em espetáculo.

É hora de romper esse ciclo.
É hora de responsabilização.
É hora de transformar indignação em política pública.

Porque nenhuma mulher deveria sobreviver ao terror para só então ser vista.